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Políticas Públicas e Ética

Psicologia e SUAS: por que o psicólogo do consultório precisa entender o sistema público

Como a nova Referência Técnica do CFP sobre o SUAS importa mesmo para quem nunca pretendeu trabalhar em CRAS

Por Equipe Sintonia ·

Psicologia e SUAS: por que o psicólogo do consultório precisa entender o sistema público

Introdução

Em novembro de 2025, o Conselho Federal de Psicologia lançou a segunda edição, revisada e ampliada, da Referência Técnica sobre a contribuição da Psicologia para o avanço do Sistema Único de Assistência Social — o SUAS. À primeira vista, é um documento que parece dialogar apenas com quem trabalha em CRAS, CREAS, Centro Pop ou na gestão municipal da Assistência Social.

A leitura cuidadosa, porém, mostra que a RT tem algo importante a dizer para o psicólogo clínico autônomo — para quem atende em consultório particular e, supostamente, não está dentro do sistema público. Porque o SUAS atravessa a clínica privada de maneiras que costumamos não nomear.

Este artigo é o primeiro de três sobre o tema. O foco aqui é simples: por que essa Referência Técnica importa para você que atende exclusivamente no privado.

O que diz a nova Referência Técnica

A RT reposiciona o trabalho da Psicologia no SUAS como prática ético-política, comprometida com a proteção social não contributiva, com a garantia de direitos e com o enfrentamento ao neoliberalismo, ao assistencialismo e ao racismo estrutural. O documento articula uma psicologia crítica, territorial e comunitária, que reconhece marcadores sociais da diferença (raça, classe, gênero, território, deficiência, geração) e disputa a Assistência Social como política pública democrática e intersetorial.

A estrutura legal mobilizada é robusta: a Constituição de 1988 (com o tripé da Seguridade Social — Saúde, Previdência e Assistência), a Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS, Lei 8.742/1993), a Política Nacional de Assistência Social (PNAS, 2004), a Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais (2009), o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) e o próprio Código de Ética Profissional do Psicólogo.

O documento adota como diretrizes estruturantes a matricialidade sociofamiliar (a família como núcleo do cuidado, sem culpabilização), a territorialidade (o território como espaço vivo, não recorte administrativo) e a intersetorialidade (articulação com SUS, Educação, Justiça e Sistema de Garantia de Direitos).

O que muda para o psicólogo clínico

Mesmo no consultório privado, vários atravessamentos da vulnerabilidade social aparecem todos os dias:

  • Pacientes que perderam o emprego e estão em insegurança alimentar. Sintomas de ansiedade e depressão que são, em parte, expressão de uma desproteção social concreta — não apenas um quadro intrapsíquico.
  • Mulheres que sustentam famílias monoparentais. Sobrecarga de cuidado, ausência de rede, configuração familiar fora do “padrão burguês”. Frequentemente categorizadas como “esgotadas” sem que se nomeie a base material do esgotamento.
  • Pacientes negros e periféricos relatando experiências cotidianas de racismo institucional, abordagem policial e violência urbana — sofrimentos que exigem leitura interseccional.
  • Pessoas LGBTQIA+ vindas de contextos religiosos conservadores, em risco de rompimento de vínculos e violência.
  • Pacientes em luto por mortes evitáveis (violência, pandemia, ausência de atendimento) — luto coletivo e estrutural que o setting individual sozinho não absorve.
  • Famílias com filhos acompanhados pelo CRAS/CREAS chegando ao consultório privado por demanda escolar, judicial ou de conselho tutelar — exigindo articulação com a rede pública.
  • Trabalhadores precarizados (motoboys, app workers, terceirizados) com adoecimento por condições de trabalho que o discurso da “resiliência individual” não resolve.

O sujeito do SUAS — e o sujeito do consultório que vive em vulnerabilidade — não é uma mônada isolada: é alguém atravessado por raça, classe, gênero, território e história. Tratá-lo de modo descontextualizado é fazer má psicologia.

A leitura que falta na clínica privada

A psicologia clínica brasileira foi historicamente treinada num modelo intimista, descontextualizado, com olhar quase exclusivo para o intrapsíquico. A RT do SUAS é, em grande parte, um convite a outra leitura — não como substituta da clínica individual, mas como complementação obrigatória.

Não se trata de virar “assistente social”. Trata-se de admitir que pobreza, racismo, violência de gênero, território e história colonial estão dentro da fala dos seus pacientes, mesmo quando eles não nomeiam isso. E que ignorar essas dimensões não é neutralidade científica — é uma escolha política, geralmente em favor de quem já tem mais.

Quando um paciente classe média alta diz que está “esgotado” e quando uma mulher que sustenta dois filhos com renda informal diz exatamente a mesma frase, estamos diante de duas configurações de sofrimento diferentes. Tratá-las como se fossem a mesma coisa empobrece a escuta.

A Psicologia tem lado

A RT é clara: não existe atuação neutra. Defender os direitos humanos e socioassistenciais previstos na Constituição de 1988 é parte do exercício profissional. Recusar práticas higienistas, moralistas e culpabilizadoras das famílias e dos territórios pobres é parte do exercício profissional. Sustentar a laicidade no atendimento, sem impor crenças religiosas, é parte do exercício profissional.

Isso vale dentro do CRAS — e vale dentro do consultório privado. Cuidar de pacientes em vulnerabilidade exige examinar a própria aporofobia (aversão a pessoas pobres), o racismo internalizado e as fantasias salvacionistas em supervisão.

Para se aprofundar

  • Como as psicólogas e os psicólogos podem contribuir para avançar o SUAS — 2ª ed. (CFP, 2025)Acesse o PDF original

Nos próximos dois artigos desta série, vamos aprofundar as orientações éticas do CFP para atender pacientes em vulnerabilidade social no privado e um guia prático de como construir interlocução real com CRAS, CREAS e a rede socioassistencial do território onde você atende.